Kannon, representa a compaixão

Sangha Zen da Bahia

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1. O contexto

O Budismo primitivo pregava o ideal de Arhatva (Pali: Arahatta) e Nirvana (Pali: Nibbana). O Buda Gautama ensinou as quatro Nobres Verdades e o Caminho de oito passos, enfatizando a transitoriedade e a não-substancialidade de todos os constituintes da personalidade humana.

Os discípulos eram chamados Arahats e o próprio Buda era descrito como um arahat. O conceito de arahat foi gradualmente se desenvolvendo e sendo elaborado por ele e por seus sucessores. Um arahat supostamente deveria compreender a fórmula dos doze nidanas (causas). Ele é definido como alguém que já erradicou os três asravas (Pali: asava = erros, intoxicantes, males): os desejos dos sentidos, o apego à existência e a ignorância; e também os quatro suplementares asravas da opinião especulativa. Ele praticou os sete Fatores da Iluminação (Pali: sambojjhanga): plena atenção, investigação, energia, alegria, serenidade, concentração e equanimidade. Ele se livrou dos cinco nivaranas (obstáculos, impedimentos): sensualidade, malícia (maus desejos), preguiça-torpor, preocupação-excitação, e dúvida. Ele libertou-se das três raízes do mal: desejos dos sentidos, ódio e delusão. Ele praticou o autocontrole e concentração, e adquiriu vários maravilhosos e úteis Poderes. Ele completou a tripla disciplina da conduta virtuosa, concentração e sabedoria. Ele seguiu os cinco preceitos éticos básicos e as dez regras estritas para os monges. Ele não possui nenhuma ânsia ou apego pelos cinco agregados que constituem a personalidade humana (forma, sensações, percepções, vontades e consciência), ou pelos seis elementos do universo (terra, água, fogo, ar, espaço e mentalidade). Ele obteve os seis abnijas (Superconhecimento). Ele abandonou todas as más disposições, que permanecem distantes dele. Ele destruiu os dez grilhões (samyojana) da crença numa individualidade substancial, noções errôneas acerca de trabalhos e cerimônias, dúvida, desejos dos sentidos, ódio, apego à vida nos mundos materiais e nos mundos não-materiais, orgulho, excitação e ignorância. Ele cumpriu dezenas de ações virtuosas abstendo-se de matar, roubar, de atos incastos, falsidade, difamação, fala áspera, conversas frívolas, cobiça-avareza, malícia e visões errôneas. Ele era puro em seus atos físicos, suas palavras e seus pensamentos. Ele era livre das três ânsias por prazeres, vida e aniquilação. Ele praticava as quatro meditações, as quatro realizações de enlevação e a suprema condição de êxtase. Ele abstinha-se dos extremos das severas austeridades e da auto-indulgência sensual. Ele tinha fé no Buda, gozava de boa saúde, cultivava a sinceridade, energia espiritual e discernimento. Ele estava firmemente estabelecido nas sete bases do estado de arahat, a saber: intenso desejo pela disciplina, pela compreensão da doutrina, pela supressão dos desejos e ânsias dos sentidos, necessidade de solidão, energia, plena atenção, perspicácia e intuição da Verdade. Ele cultivou as oito posições de maestria e as oito liberações. Ele experimentou os quatro estados sublimes subjetivos de amor, compaixão, simpatia, alegria e equanimidade. Ele praticou os trinta e sete princípios que conduzem à iluminação, a saber: os quatro campos da plena atenção, os quatros esforços corretos, as quatro bases dos maravilhosos e úteis poderes, os cinco princípios do controle das ações, os cinco poderes, os sete fatores da iluminação e o caminho de oito passos. Acima de tudo, ele tornou-se absolutamente livre dos três ou quatro asravas, e essa liberação fez dele um arahat.

Um arahat, que realmente se libertou, sabe que não renascerá. Ele completou o que havia para ser feito. Ele largou sua carga. Ele viveu uma vida santa. Ele atingiu a imaculada e final emancipação da mente e do coração. Ele estava só, retirado, zeloso, determinado, mestre de si mesmo.

Um arahat desses também foi adiante como um pregador e ensinou a doutrina do Buda às pessoas. O mestre exortou seus discípulos a peregrinar e pregar a Verdade pela felicidade e liberação das multidões, uma vez que ele amava seus companheiros e sentia compaixão por eles.

Esse era o ideal de um arahat, como era entendido durante os três séculos após a morte do Buda Gautama. Mas parece que os monges budistas começaram a negligenciar certos aspectos importantes disso nos séculos seguintes, e enfatizaram alguns aspectos em detrimento de outros. Eles se tornaram muito autocentrados e contemplativos, e não evidenciavam o antigo zelo pela atividade missionária entre as pessoas. Eles pareciam cuidar apenas de sua própria liberação dos males e sofrimentos. Eles eram indiferentes à responsabilidade de ensinar e ajudar todos os seres humanos.

A doutrina do Bodhisattva foi promulgada por alguns lideres budistas como um protesto contra essa perda do verdadeiro fervor espiritual e altruísmo entre os monges daquele período. A frieza e indiferença desses (falsos) arahats levaram a um movimento em favor do antigo evangelho de “salvar todas as criaturas”. O ideal do Bodhisattva só pode ser entendido em contraposição a esse contexto de santidade e serenidade, mas inativas e indolentes ordens monásticas.

Esta tendência ao egoísmo espiritual entre os monges é exibida na literatura Pali posterior. O Dhammapada exalta o autocontrole, meditação e abstenção do ódio, mas também exibe uma atitude de desprezo pelas pessoas comuns e distanciamento de seus interesses. A maior parte dos poetas Thera-gatha somente consideram a salvação pessoal; eles raramente falam da responsabilidade de ajudar os outros. O autor do Milinda-panha declara que um arahat deveria objetivar a destruição de sua própria dor e sofrimento. O ideal singular de um pratyeka-buddha era também desenvolvido durante este período (Pali: pacceka-buddha). Este tipo de Buda é alguém iluminado por si mesmo, ou seja, alguém que atingiu a suprema e perfeita compreensão, mas morre sem proclamar a verdade para o mundo (conforme Puggala-pannatti, p.14). Parece quase uma blasfêmia conceber um “Buddha” sem o atributo do amor e da atividade altruística. Mas a invenção deste termo e seu reconhecimento como epíteto de um certo tipo de “Buddhas” pode ser interpretado como um sinal dos tempos. Alguns budistas pensam que alguém poderia ser muito sábio e santo através de um cultivo pessoal sem cumprir a igualmente importante tarefa de ensinar e ajudar a humanidade sofredora. O ideal do Bodhisattva foi ensinado com o objetivo de agir contra essa tendência para um enclausuramento, uma plácida e inerte vida monástica. Um Bodhisattva é enfaticamente e primariamente alguém que critica e condena o egoísmo espiritual desses “arahats” e pratyeka-buddhas. Ele declara logo a princípio que ele não é uma arahat ou pratyeka-buddha, com quem deve sempre ser contrastado. Ele deveria também ser claramente distinguido deles.

Os expoentes do novo ideal também protestaram contra o “supremo bem” do nirvana. Eles declararam que a mera cessação de duhkha (dor, mal) ou a conquista dos asravas não era suficiente. Eles podem ter chamado a atenção que a palavra nirvana não aparece nos primeiros registros dos primeiros sermões do Buddha Gautama, mas que era mencionada neles anuttara samma-sambodhi (iluminação perfeita e suprema). O Buddha Gautama adquiriu este bodhi: conseqüentemente todos deveriam e poderiam fazer o mesmo. O ideal do arahat do nirvana não inclui a perfeição intelectual e a sabedoria suprema. Os arahats também acreditavam que um monge, que atinge o nirvana nessa vida, não poderia permanecer em contato com esse mundo de fenômenos condicionados após a sua morte, qualquer que fosse o seu estado de existência. Ele não renasceria na Terra ou nos infernos: isso era certo. Ele cessava de existir, ou existia de uma maneira indefinível, numa esfera inconcebível em algum lugar ou em nenhum lugar (asamskrta); ou que nada poderia ser afirmado sobre ele. Em nenhuma medida, ele estaria perdido para esse mundo dos homens e devas como um amigo ou ajudante, assim como não havia nada ligasse o abismo entre o samskrta (condicionado) e os elementos do asamskrta (incondicionado). O nirvana era obviamente considerado como um asamskrta-dhatu. Portanto o arahat, uma vez falecido, estava morto e perdido, assim como no que concerne às suas relações com o mundo dos seres vivos, qualquer que pudesse ser seu destino, positivo ou negativo.

A doutrina do Bodhisattva foi promulgada também como um protesto contra essa teoria do estado de arahat, que foi considerada duplamente defeituosa. Ela desconsidera a elevada tarefa de adquirir a perfeita sabedoria de um Buddha; e priva o mundo dos serviços do homem ou mulher santos que alcançaram o nirvana e faleceram. Um Bodhisattva é definido como alguém que se esforça para alcançar bodhi e zomba desse tipo de nirvana, uma vez que ele deseja socorrer e ajudar seus semelhantes no mundo do sofrimento, dos males e da impermanência.

(tradução: monja Ivone Jishô)